general28 de abril
Dormir dentro de um castelo não é para qualquer roteiro. Exige reserva antecipada, acesso quase sempre complicado e, em pelo menos um caso, disposição para vestir armadura no check-in. Quem topa essas condições ganha em troca o Dragsholm Slot dinamarquês, com estrela Michelin e cem fantasmas catalogados pela lenda local, ou o Solar do Castelo em Lisboa, onde os pavões do Castelo de São Jorge aparecem no pátio como se fossem da casa. No Japão, a torre de Ozu fecha para o público assim que o último turista do dia vai embora e abre exclusivamente para o próximo grupo que dormirá ali. Na Espanha, no interior de Castilla-La Mancha, uma fortaleza árabe do século VIII serve jantar nas mesmas abóbadas de sempre. Ozu Castle Stay — Japão Ozu Castle Stay Divulgação O check-in começa antes mesmo de chegar ao castelo. Um carro particular aguarda os hóspedes no aeroporto de Matsuyama e os conduz pela costa da Prefeitura de Ehime até a cidade de Ozu, uma hora depois, às margens do Rio Hiji. A chegada é cerimonial: samurais em armadura histórica disparam espingardas de mecha, desdobram as bandeiras do Domínio de Ozu e entregam as chaves do castelo ao grupo em um ritual que reproduz fielmente o protocolo de 1617. A partir dali, o castelo inteiro pertence aos hóspedes até o amanhecer. A torre de quatro andares foi reconstruída em 2004 com técnicas de carpintaria tradicionais e madeira de árvores com 250 anos, sem uma peça de concreto. Vigas talhadas à mão, paredes de bambu e barro, pisos que rangem sob os pés: a UNESCO reconheceu os métodos de restauração como Patrimônio Cultural Imaterial. O jantar é servido em uma das torres designadas como Bem Cultural Importante, com pratos que os Kato — família que governou o domínio por 13 gerações — reconheceriam na mesa. O café da manhã é no Garyu Sanso, villa histórica do período Meiji às margens do rio, exclusiva para os hóspedes do castelo naquele momento. Apenas um grupo por dia. A diária parte de ¥660.000 por pessoa. Ozu Castle Stay Divulgação Ashford Castle — Irlanda Ashford Castle — Irlanda Divulgação Às margens do Lough Corrib, no Condado de Mayo, o Ashford Castle foi erguido no século XIII e passou por mãos nobres, magnatas e pelo próprio tempo antes de se tornar um dos hotéis cinco estrelas mais celebrados da Europa. A chegada pela estrada arborizada que corta os 350 acres da propriedade já é parte da experiência: bosques, lago, rio e montanhas ao fundo compõem um cenário que parece pintado. Os interiores seguem o mesmo padrão de grandiosidade contida, com pedra original, madeiras escuras e lareira acesa nas tardes frias do oeste irlandês. O castelo é lar da escola de falcoaria mais antiga da Irlanda, e as sessões com os falcões pela manhã estão entre as experiências mais procuradas pelos hóspedes. A propriedade oferece ainda pesca no lago, equitação, tiro ao alvo com arco e flecha e caminhadas guiadas pelos caminhos históricos da fazenda. O restaurante principal serve refeições de vários tempos com ingredientes locais do Connacht. Há spa, piscina coberta e um campo de golfe de nove buracos. Quem chega por um fim de semana costuma precisar de mais. Ashford Castle — Irlanda Divulgação Solar do Castelo — Portugal Solar do Castelo — Portugal Divulgação No alto da Alfama, dentro dos muros do Castelo de São Jorge, há uma porta azul que leva ao único hotel instalado dentro do complexo medieval de Lisboa. O Solar do Castelo ocupa um palacete do século XVIII erguido sobre o que foram as cozinhas do Palácio Real, e guarda nos próprios alicerces uma cisterna com artefatos que remontam à Idade do Ferro. Os 20 quartos têm pisos de madeira, mobília de inspiração medieval contemporânea e tecidos em tons de vermelho e ocre, desenhados especialmente para o espaço pelo ateliê da designer portuguesa Graça Viterbo. Alguns ficam sob o telhado mansardo, com o teto inclinado rasando a cama. O pátio interno é o coração do hotel: ali, os pavões do castelo aparecem entre os hóspedes com a naturalidade de quem mora no lugar há séculos. O Fado ecoa lá embaixo, nas vielas da Alfama. Carros não entram na Vila do Castelo, e essa impossibilidade é parte do charme: a única forma de chegar é a pé pelas ruelas de paralelepípedo ou de táxi pelas entradas autorizadas. O café da manhã inclui pastéis de nata e há Porto esperando nos quartos à chegada. Solar do Castelo — Portugal Divulgação Château de Bagnols — França Château de Bagnols — França Divulgação No coração da Borgonha vinícola, entre os vinhedos do Beaujolais, o Château de Bagnols foi construído em 1217 pelo senhor feudal Guichard d'Oingt para durar séculos. Durou. As muralhas originais, o fosso, as torres de guarda e as pinturas renascentistas que decoram os salões sobreviveram a guerras, revoluções e ao esquecimento antes de uma restauração meticulosa devolver ao château o lugar que ocupa hoje entre os endereços mais desejados da França. Reaberto em maio de 2025 após nova rodada de reformas, o hotel combina a robustez da pedra medieval com interiores que não tentam disfarçar nenhum dos dois séculos em que vivem simultaneamente. Os quartos ficam dentro das estruturas históricas do castelo, com tetos abobadados, janelas em arco e espessura de parede que reduz o mundo exterior a um murmúrio. O restaurante usa os produtos dos produtores locais de Beaujolais e organiza degustações nas adegas originais. A região é uma das mais generosas da França em termos de paisagem e gastronomia, e o château funciona como base natural para explorar tudo isso sem pressa. Château de Bagnols — França Divulgação Langley Castle — Inglaterra Langley Castle — Inglaterra Divulgação Construído em 1350 em plena Northumberland, o Langley Castle serviu a lordes, viscondes e condes por séculos antes de se tornar um dos poucos castelos medievais fortificados da Inglaterra a operar como hotel. As ameias, as torres e o Grande Salão continuam exatamente onde sempre estiveram. Por dentro, paredes de pedra que chegam a metro e oitenta de espessura criam uma quietude quase física nos quartos, que têm tapeçarias, lareiras funcionais e camas com dossel. Alguns quartos ficam nas próprias torres, com janelas que enquadram as colinas de Northumberland como se fossem pinturas. Fica a 40 minutos de Newcastle, mas a sensação de distância do mundo contemporâneo é bem maior que isso. O restaurante serve dentro das salas históricas do castelo, com menu que privilegia os produtos regionais do norte da Inglaterra. Para quem viaja pela rota dos castelos ingleses, o Langley é uma parada obrigatória que dificilmente se consegue abreviar. Langley Castle — Inglaterra Divulgação Dragsholm Slot — Dinamarca Dragsholm Slot — Dinamarca Divulgação A uma hora de Copenhague, no meio da paisagem suave de Zealand, o Dragsholm existe desde aproximadamente 1215, quando o Bispo de Roskilde mandou erguer o primeiro edifício no islote cercado de lagos e prados. Nos séculos seguintes, o castelo foi fortaleza medieval, prisão de nobres e eclesiásticos, ruína de guerra e, finalmente, o sobrado barroco branco que existe hoje, reconstruído no final do século XVII pelo nobre Frederik Christian Adeler. Desde 1937, recebe hóspedes. Desde 2018, faz parte da Relais & Châteaux. O Dragsholm opera como o único hotel-castelo com estrela Michelin da Dinamarca: o restaurante gourmet do chef Claus Henriksen trabalha com ingredientes da fazenda biodynamica da própria propriedade e da costa próxima, em menus de degustação que mudam com as estações. A cozinha bistro serve uma versão mais acessível da mesma filosofia. Os quartos têm a sobriedade nórdica no lugar dos excessos barrocos que se esperariam, com paleta de naturais e madeira clara. E, segundo as lendas locais, aproximadamente 100 fantasmas habitam os corredores: a Dama Cinza, a Dama Branca e o Conde de Bothwell, que morreu encarcerado nas celas do castelo, estão entre os mais frequentemente avistados. Dragsholm Slot — Dinamarca Divulgação Hotel Burg Trendelburg — Alemanha Hotel Burg Trendelburg — Alemanha Divulgação Na Rota dos Contos de Fadas da Alemanha, a 50 quilômetros de Kassel, o castelo de Trendelburg foi construído no século XIV para proteger a estrada entre duas cidades e acabou entrando para a história de outro jeito: sua torre de 40 metros é apontada como a inspiração para o conto de Rapunzel, dos Irmãos Grimm. O hotel tem 22 quartos com mobília antiga e atmosfera de outro século, e um deles fica dentro da própria torre, com escada em espiral e vista sobre o Vale do Diemel. No topo da torre, há um museu dedicado ao universo dos contos de fadas e uma sauna orgânica instalada entre as pedras medievais. O festival medieval que acontece todo mês de maio transforma o pátio do castelo em uma cena que não precisa de reconstituição: as pedras já fazem o trabalho. O restaurante serve dentro das salas históricas, com menu de cozinha alemã clássica e um jantar temático de contos de fadas que os hóspedes mais jovens levam muito a sério. Hotel Burg Trendelburg — Alemanha Divulgação Parador de Alarcón — Espanha Parador de Alarcón — Espanha Divulgação Em Castilla-La Mancha, o castelo de Alarcón ergue suas cinco torres sobre um meandro quase perfeito do Rio Júcar, cercado de água em três lados como uma ilha artificial construída pela natureza. A fortaleza árabe data do século VIII e passou por visigodos, mouros e cavaleiros cristãos antes de se tornar uma das propriedades mais dramáticas da rede Parador, os hotéis do Estado espanhol instalados em edifícios históricos. São apenas 14 quartos dentro das muralhas originais, com paredes de pedra exposta, móveis de época e janelas que enquadram o vale como se o tempo ali tivesse parado em algum ponto entre o medievo e a manhã de hoje. O salão de jantar funciona como funcionaria no castelo histórico: pratos da culinária tradicional de Cuenca servidos em mesas compridas sob tetos abobadados, com vinho da Mancha. A chegada ao vilarejo de Alarcón, por uma única estrada que sobe até a fortaleza, já prepara para o que vem a seguir. Parador de Alarcón — Espanha Divulgação Castello di Vicarello — Itália Castello di Vicarello — Itália Divulgação Na Maremma toscana, longe das rotas mais percorridas da região, o Castello di Vicarello foi uma fortaleza de pedra do século XII antes de ser encontrado em estado de abandono pelo casal Aurora e Carlo Baccheschi Berti, que passou 12 anos restaurando cada pedra antes de abrir as portas para os primeiros hóspedes. O resultado são nove suítes únicas, com mobília antiga indonésia e italiana convivendo com as paredes de pedra medieval de um jeito que parece ter sido sempre assim. Dois terraços com piscinas de borda infinita olham para as colinas da Maremma sem um telhado contemporâneo no horizonte. A propriedade tem vinhedos orgânicos e olivais, e Aurora é conhecida regionalmente pelas aulas de culinária que oferece com ingredientes colhidos na hora. Os jantares servem os vinhos Super Toscanos da própria fazenda em mesas montadas no jardim ou nos salões do castelo, dependendo da estação. O lugar tem a qualidade rara dos hotéis que parecem não saber que são hotéis. Castello di Vicarello — Itália Divulgação Revistas Newsletter Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!